A arte da crítica (11 ): a emoção (2)

A arte da crítica (11 ): a emoção (2)

Cena de Tire Dié, de Fernando Birri

Para continuar no tema da emoção, permitam-me rememorar um amigo querido, que já se foi. Trata-se do grande cineasta argentino Fernando Birri(1925-2017). Encontramo-nos várias vezes, em diversas cidades– Rio, São Paulo, Fortaleza, Havana. Eu ficaria horas aqui falando do Birri que, além de cineasta, foi poeta, desenhista, fundador da Escuela de Cine de Cuba, revolucionário, utopista, etc. Morreu com 92 anos.

Depois de já conhecê-lo muito bem, fui reencontrá-lo durante um dos Festivais del Nuevo Cine Latinoamericano, em Cuba. Estávamos hospedados no Hotel Habana Libre, Hilton na pré-revolução. Pedi-lhe uma entrevista. Ele disse que estava ocupado demais e me fez uma contraproposta. Ao invés de uma entrevista formal, nos encontraríamos todos os dias no café da manhã, ao longo da duração do celebration, e então conversaríamos. Bem, foi uma festa e, claro, a entrevista virou um bate-papo animado e longo em torno de mil e um assuntos.

Mas, para entrar no tema deste post, quero lembrar quando o conheci no Rio, numa das edições do finado Cinesul. Lá vi sua obra-prima, o média Tire-Dié, que me deixou muitíssimo entusiasmado. Quem não conhece o filme, veja urgentemente. É uma obra-prima, sobre garotos pobres que se equilibram ao largo da linha do trem, pedindo moedas aos passageiros. O título vem da corruptela de “Tire Diez”, com a qual os moleques pediam que lhes jogassem moedinhas de dez centavos.

Na conversa que tive com Birri depois da sessão no Cinesul, falei da emoção que o filme me causara e ele me retrucou com a fórmula que guardo até hoje como uma espécie de senha-talismã para estas questões: ” Quiero mi público conmovido, pero lúcido”.

É curioso como algumas frases nos marcam. Isso acontece porque não são clichês vazios de significado. Essas frases luminosas são, pelo contrário, condensações de um pensamento profundo, que exprimem, em síntese poética, todo um trabalho de reflexão e amadurecimento.

Aí temos: quero o meu público comovido, mas lúcido. Birri entende que a emoção é desejável porque ela é capaz de quebrar barreiras e modificar consciências. Mas ele não quer o público presa de uma emoção sem consequências, que não o leve a refletir sobre o sentido da comoção provocada pela obra.

Na ocasião me lembrei, e creio ter falado disso a Birri, que comigo havia acontecido algo parecido com isso, na adolescência. Quando virei gente, lá pelos 15 ou 16 anos, e comecei a descobrir o país em que vivia, surgiu de forma latente o sentimento de inconformismo diante da injustiça. Algo difuso. Uma noite fui ver, com um amigo, o espetáculo Arena conta Zumbi A emoção foi tão profunda que, juro, se alguém me desse um fuzil na saída, seguiria imediatamente para a primeira Sierra Maestra disponível. A peça de Guarnieri e Boal havia cristalizado, dado forma, a esse sentimento antes informe, de luta contra a injustiça, de inconformismo diante da opressão, de busca pela liberdade. Tantos (tantos!) anos depois, tantos desvios, tropeços e desilusões, penso que ainda guardo intacto esse sentimento profundo. Quando tudo o mais se for, ele ficará.

Bem, aí está a coisa. Talvez seja esse o tipo de emoção a que Birri se refere– um facho a iluminar uma ideia que, sem ela, talvez fosse menos nítida, por certo menos intensa e duradoura. Se a arte nos modifica é porque trabalha nessa qualidade que nos atinge de maneira muito direta, como se falasse sem intermediários ao nosso inconsciente.

Tomo exemplos rápidos daquilo que me atingiu e não esqueci. O post passado foi ilustrado com uma foto de um filme de Truffaut, A Mulher do Lado Numa cena, Depardieu e Fanny Ardant se beijam. Ela desfalece e cai no chão. Vendo o filme, pensei: “É isso o amor”. Desabamos.

Terra em Transe é o filme de Glauber que mais me toca. Sabem todos que ele foi motivado pelo golpe de 1964 e pela ausência quase completa de reação popular e apoio ao governo de Jango. Tudo o que se construíra no campo progressista, caiu como castelo de cartas. Glauber não esboça qualquer teoria, nenhuma sociologia. Em modus poético, nos atira na cara aquelas imagens, entre o belo, o sórdido e carnavalesco, como a dizer: “É isto, o Brasil. Compreenda e assimile se for capaz”. O filme é de 1967 e parece que foi feito hoje para comentar a terrível realidade em que vivemos. Pela via dos sentidos, ele ilumina o nosso intelecto.

Na sequência final mais tocante do cinema (para mim, é claro), Fellini coloca todos os personagens de 81/ 2 numa ciranda imaginária, todos de mãos dadas, ao som da música lírico-circense de Nino Rota. Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) é o grande diretor daquela cena que celebra, como se sabe, a obra que não pôde ser concluída. Naquela ciranda, ele concilia todos os opostos em que se dilacera, a mulher, a amante, a prostituta da infância, o produtor e o diretor, o crítico feroz, a atriz difícil e vaidosa, e ele mesmo que percebe, por fim, a completude como uma fantasia impossível, mas mesmo assim inevitável. Porque, sem paradoxo, é a nossa falha estrutural, a nossa incompletude dramática, que nos faz sonhar com a ilusória completude que jamais alcançamos. Mas que nos move.

Por fim, li há pouco um texto nos Cahiers du Cinéma, o editorial de Stéphane Delorme, diretor da revista. Ele se referia ao incêndio da Catedral de Notre-Dame e dos efeitos provocados na população francesa. Transcrevo: “Ils appellent ça ‘sidération’ put bien vider l’émotion de tout contenu, pour faire croire que nous ne pensons pas quando nous sommes émus, alors que l’émotion est le signe même de la mise en branle de la pensée. Le moment où les choses se rassemblent et typeface sens, quand bien même elles sont irrationnelles.”

Traduzindo: “Eles chamam isso de ‘sideração’ para esvaziar a emoção de todo o conteúdo, para nos fazer acreditar que não pensamos quando estamos emocionados, enquanto que a emoção é o próprio sinal da colocação em movimento do pensamento. O momento em que as coisas se rearranjam e fazem sentido, ainda que sejam irracionais. “

Na nomenclatura médica, a sideração é resultado de um choque emocional tão strength que pode levar até a um estado de morte aparente. Delorme fala da emoção “imensa e inédita” que se seguiu ao incêndio da velha igreja parisiense e era tratada pelos poderes e pela mídia como uma comoção popular nas raias do irracional. Delorme fala que os tais poderes e mídias tentam domesticar essa emoção genuína dos franceses, imputando-lhe algo de irracional, o que na França cartesiana pode ser um anátema, ainda que oculto em primeiro momento no reconhecimento dos efeitos do desastre sobre a população.

Delorme lembra que a emoção, pelo contrário, é sinal de que o pensamento se move, e se reordena em outras bases, mesmo que estejamos falando de algo que vai além da mera racionalidade.

A emoção é tão importante nos filmes que não deve ser banalizada. E, nas críticas, podemos (devemos?) colocar uma dosage de emoção (em especial se a sentimos ao ver o filme), mas não podemos deixar nos dominar por ela. É um guia. Uma luz que, em excesso, pode cegar. Mas, sem ela, nada vemos.

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