Esculturas de Antony Gormley são expostas em ruínas gregas

Euclides, o pai da geometria, decretou que o centro de um círculo é um ponto fixo. A ilha grega de Delos, um pedaço de terra árido rochoso com solo estéril localizado dentro de um círculo de pequenas ilhas chamadas Cíclades, violou essa regra. Fala-se que as Cíclades ganharam uma localização fixa somente depois que se tornaram berço de Apolo, deus da sabedoria e da luz, e de Artemis, deusa da lua. Conhecida antes como Adilos (invisível) recebeu depois o nome de Delos, que indica alguma coisa exibida ou demonstrada.

Coordenadas estáveis não são garantia de uma vida estável. No âmbito da história real, este trecho sagrado de terra foi disputado por ilhas rivais, cidades-Estado, impérios e interesses comerciais. No início eram competições benignas para construir o mais belo templo; mas, nos períodos helenístico e romano, Delos se tornou uma zona franca terrena onde a product mais visível eram os escravos. Mais de 20 mil pessoas viviam numa área de cinco quilômetros de comprimento por 1,5 quilômetros de largura. Algumas possuíam casas opulentas com mosaicos magníficos. Mas há também traços de incêndios aterradores.

Sir Antony Gormley, um dos artistas mais importantes da Grã-Bretanha, diz que conseguiu sentir o legado desse ambiente proteiforme quando decidiu instalar suas próprias esculturas de ferro entre as rochas, as antiguidades e o mar. Em dias muito frios, a água e a crosta da ilha têm um tom cinzento similar e nos dias ensolarados o granito reflete o sol e se funde com o céu. Sir Anthony diz entender porque Delos age vista outrora como uma ilha à deriva: “Há um sentimento de ela se ampliar para o espaço”. Na primavera sua beleza é espetacular; o inverno dá lugar a um esplêndido tapete de flores.

Vinte e nove figuras antropomórficas de Sir Antony estarão expostas em Delos até final de outubro. Algumas são visivelmente copiadas de corpos humanos (incluindo o seu próprio), outras constituem uma reunião de formas em tijolos que apenas se aproximam do Homo sapiens. Cinco das obras foram produzidas especialmente para a exposição; as restantes foram criadas durante seu estudo de 20 anos da relação entre o corpo e seu meio ambiente. Em Delos elas também representam um experimento deslumbrante de justaposição de arte clássica e contemporânea– e é uma rara exceção à atitude rígida da Grécia quando se trata do uso de suas antiguidades.

Ninguém, salvo os guardiães, conseguiria viver na ilha sagrada, mas a cada ano 165 mil pessoas chegam a Delos em navios lotados, vindas ou da ilha de Mikonos ou de navios de cruzeiro. A estátua que monta guarda na água deixa os visitantes sem fala quando aportam na extremidade noroeste da linha. Outras esculturas, como uma muito abstrata colocada no teatro antigo, são mais provocativas. Os blocos pesados de ferro estão colocados estoicamente num local onde outrora eram encenadas tragédias clássicas sofisticadas.

Tendo crescido como católico, mas depois se dedicado ao budismo, Sir Antony odeia sistemas religiosos rígidos. Toda arte espiritual do passado envolve uma subserviência às maneiras estabelecidas de pensar e estruturas de poder, afirma. E ele quer evitar isto, qualificando suas obras como uma sugestão ou um estímulo. Elas convidam o ser humano a reocupar seu corpo e superar sua alienação da natureza, que na visão dele, toda a civilização, mesmo aquela da antiga Grécia, causou. Sua preferência pelo ferro tem um duplo significado: é uma matéria prima do planeta, mas também foi base da Revolução Industrial com todos os seus danos colaterais.

Por razões de praticabilidade e política cultural, a instalação é uma enorme façanha, e cara. Por exemplo, oito das esculturas tiveram de se transportadas por um helicóptero fretado. Entre os organizadores da mostra, chamada Sight, está a fundação Neon, fundada por Dimitris Daskalopoulos, empresário grego. Numa colaboração público-privada, algo inusitado em se tratando da Grécia, a fundação trabalhou com o departamento do ministério da Cultura que supervisiona as Cíclades. Juntos eles contataram Central Aarchaelogical Council, que protege os sítios clássicos e que insiste que nenhuma escultura seja instalada em áreas sagradas dos antigos templos.

Mesmo respeitando tais cláusulas, a permissão para realizar a exposição foi algo inusitado. Na história da Grécia, poucas vezes suas antiguidades tiveram usos não convencionais. Nos anos 1850, soldados britânicos e franceses realizaram um banquete no Partenon. Para os orgulhosos gregos, foi uma atitude provocativa de países que já haviam roubado muitas obras de arte helênica. Nos anos 1920, um fotógrafo grego chamado Nelly induziu bailarinas famosas a posarem quase ou completamente nuas em torno do Partenon. Isadora Duncan, matriarca da dança moderna, estava vestida mais decentemente quando dançou em volta das colunas do templo alguns anos antes.

A demanda de cineastas por locais gregos implicou novos dilemas. Uma autorização para filmar na Acrópole foi dada a Francis Ford Coppola; o pedido da BBC para usar o pace de Sounion, no sul de Atenas, para sua minissérie The Little Drummer Woman, foi aceito também, embora somente depois de a emissora revisar seus planos. Mas a casa de moda Gucci foi rechaçada em 2017 quando pediu permissão para um evento na montanha ateniense. E infeliz o turista que tentar encenar qualquer evento espontâneo. Vista uma roupa clássica e present para amigos na frente de um pilar e você corre o risco de ser repreendido por um guarda.

Filmes e outros eventos culturais próximos das antiguidades são “uma exceção” diz Manolis Korres, encarregado da conservação da Acrópole. Portanto, em sua ousadia, sua extravagância e ao desafiar um local reverenciado, a exposição de Delos provavelmente será um evento único. “Nada igual ocorrerá novamente”, disse Dimitris Athanasoulis, ministro da Cultura. No momento, espera sir Antony, suas figuras estão expostas como agulhas de acupuntura nos penhascos da ilha, prontas para reativar suas energias místicas./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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